Capitulo 7 - Ultrassonografia Aplicada à Pecuária de Corte

Tópico 1 – Introdução

A adoção da ultrassonografia na pecuária de corte vem crescendo significativamente, impulsionada pela busca por maior eficiência reprodutiva, redução de intervalos entre partos, descarte estratégico de fêmeas improdutivas e aumento do número de bezerros nascidos por estação de monta. Trata-se de uma tecnologia acessível e de alto impacto produtivo quando aplicada de forma sistemática e orientada por protocolos específicos.

A utilização do ultrassom como ferramenta para realização do diagnóstico de gestação precoce em protocolos de ressincronização é essencial para seu andamento. Esses protocolos permitem o encurtamento da estação de monta e melhoria da eficiência reprodutiva (Baruselli et al, 2025).

Tópico 2 – Rotina Reprodutiva em Gado de Corte

Estação de Monta

Consiste na concentração de todas as ações reprodutivas numa janela que dura cerca de 90 a 120 dias e coincide com a época de clima favorável e maior disponibilidade de alimento.

A estação de monta é uma estratégia fundamental na pecuária de corte para concentrar os partos, otimizar o uso dos recursos nutricionais e organizar o calendário produtivo e sanitário do rebanho. A ultrassonografia reprodutiva tem se consolidado como ferramenta indispensável para o planejamento, execução e avaliação da estação de monta, permitindo maior eficiência no uso de protocolos hormonais e na identificação precoce de problemas reprodutivos.

Antes da Estação de Monta

Antes do início da estação de monta, é fundamental realizar um exame ultrassonográfico completo de todas as matrizes do rebanho. Essa avaliação permite identificar com precisão o estado reprodutivo de cada fêmea, classificando-as quanto à presença ou ausência de ciclicidade, distinguindo entre vacas ciclando, em anestro transitório ou em anestro profundo. Além disso, é possível avaliar o útero quanto ao seu grau de involução, identificar alterações patológicas e verificar se há alguma prenhez inesperada.

Com base nesse diagnóstico antes da estação, o médico-veterinário pode agrupar as fêmeas em lotes homogêneos e de acordo com sua situação clínica e reprodutiva, o que facilita a aplicação de protocolos específicos de IATF e permite maior assertividade nas estratégias reprodutivas.

Esse planejamento prévio contribui significativamente para o aumento da taxa de prenhez na primeira inseminação, além de permitir o uso mais eficiente dos recursos disponíveis. A alocação dos lotes pode ser feita com base nas exigências nutricionais de cada grupo, otimizando a distribuição dos animais nos pastos e o fornecimento de suplementos, conforme a condição fisiológica e reprodutiva de cada matriz.

 

Achados Ultrassonográficos de Vacas em Anestro Profundo

A condição de anestro profundo é comum em vacas de corte submetidas a estresse nutricional, especialmente durante o pós-parto em períodos de escassez forrageira. Trata-se de uma condição fisiológica, mas que pode se perpetuar caso o ambiente e a nutrição não sejam corrigidos. A ultrassonografia reprodutiva é uma ferramenta decisiva para diferenciar essa situação de outras causas de infertilidade e orientar o uso de protocolos de indução hormonal.

Útero: O útero apresenta-se flácido, simétrico e com paredes finas.

Ovários: Os ovários são pequenos e de superfície lisa, sem presença de estruturas funcionais como corpo lúteo ou folículos dominantes. Quando presentes, os folículos são pequenos (< 5 mm).

Diagnóstico: Anestro profundo – ausência completa de atividade cíclica, geralmente associado a baixa condição corporal (ECC < 2,5), balanço energético negativo, presença do bezerro ao pé e fatores ambientais ou nutricionais desfavoráveis. Não se trata de uma condição patológica, mas de adaptação fisiológica à escassez energética.

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Conduta clínica: O manejo recomendado envolve o uso de protocolos hormonais de indução de ciclicidade. O sucesso da indução depende diretamente da nutrição e escore corporal da fêmea, sendo essencial que a vaca volte a ganhar peso.

Outra alternativa seria aumentar a dose do hormônio eCG para ajudar no crescimento do folículo dominante. Deve-se tomar cuidado com o risco de induzir gestações gemelares, por isso o ideal seria utilizar no máximo 400U.I de eCG em protocolos mais longos.

Por último, pode-se utilizar uma aplicação de GnRH como indutor de ovulação secundário no momento da inseminação para aumentar o número de ovulações. Essa estratégia pode ser adotada em todas as vacas em anestro profundo, mas principalmente em fêmeas que não demonstraram cio no protocolo.

Achados Ultrassonográficos de Vacas em Anestro Transitório

O anestro transitório representa uma condição fisiológica comum nas primeiras semanas pós-parto de vacas de corte e caracteriza-se pela ausência temporária de ciclicidade ovariana. É uma fase de transição entre o anestro profundo e a ciclicidade. O exame ultrassonográfico permite identificar essa condição e distinguir vacas com retorno iminente à atividade ovariana daquelas em anestro profundo.

Útero: Útero simétrico, com paredes finas e conteúdo uterino ausente. Pode haver leve tônus ao toque transretal, indicando início de resposta estrogênica.

Ovários: Presença de folículo dominante, sem evidência de corpo lúteo.

Diagnóstico: Anestro transitório  – vaca em fase de retorno à ciclicidade, ainda sem ovulação efetiva e ausência de corpo lúteo.

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Conduta clínica: Realização de protocolos de indução de ciclicidade.

Mais um caso em que é possível utilizar uma aplicação de GnRH como indutor de ovulação secundário no momento da inseminação para aumentar o número de ovulações. Essa estratégia pode ser adotada em todas as vacas em anestro ou apenas nas que não demonstraram cio no protocolo.

Procolos de Indução de Ciclicidade em Vacas de Corte

São protocolos que tem o objetivo de retomar a ciclicidade de vacas em anestro através da utilização da progesterona que pode ser injetável ou intravaginal.

Achados Ultrassonográficos de Vacas Ciclando

A identificação de vacas ciclando é um ótimo sinal para o sucesso dos programas reprodutivos em rebanhos de corte, pois indica que essas vacas estão em ótimas condições para reprodução. A ultrassonografia permite não apenas confirmar a presença de atividade ovariana, mas também avaliar em que fase do ciclo estral a fêmea se encontra, o que auxilia diretamente na definição de protocolos de inseminação artificial em tempo fixo.

Útero: O útero geralmente apresenta tônus moderado a intenso, dependendo da fase estral e se há presença de ação estrogênica (fase folicular) ou progesteronica(fase luteal).

Ovários: Presença de corpo lúteo funcional, podendo ou não apresentar folículo dominante (>10 mm).

Diagnóstico: Atividade cíclica normal – fêmea apta à inseminação, com resposta endócrina adequada e estruturas ovarianas funcionais.

Conduta clínica: A resposta a protocolos em vacas ciclando tende a ser superior, com maiores taxas de prenhez.

Diversas estratégias podem ser adotadas:

Escolha de um protocolo base

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Aplicação de prostaglandina no dia zero do protocolo. Essa prática vai baixar os níveis de progesterona durante o crescimento folicular melhorando os resultados da IATF.

A utilização de eCG no d8 e GnRH no dia da inseminação são opcionais, isso porque essas vacas cíclicas já tem alta fertilidade. A utilização dessas estratégias podem ou não melhorar os resultados de fertilidade do protocolo

Tópico 3 – Estratégias na Estação de Monta

Durante a estação de monta, a adoção de estratégias reprodutivas bem definidas é essencial para alcançar altas taxas de prenhez e reduzir o intervalo entre partos. Um dos principais desafios enfrentados nesse período é a presença de vacas em anestro, condição bastante comum em sistemas de cria extensivos, principalmente entre fêmeas de escore corporal abaixo do ideal ou em fase de recuperação pós-parto.

Para lidar com esse cenário, os protocolos de indução de ciclicidade – também chamados de pre-synch – têm sido amplamente utilizados com sucesso. Esses protocolos geralmente envolvem o uso de dispositivos intravaginais de progesterona (P4), associados à administração de eCG (gonadotrofina coriônica equina) no momento da retirada do implante, e GnRH (hormônio liberador de gonadotrofina) no dia da inseminação.

A progesterona exerce efeito sensibilizador sobre o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, enquanto o eCG estimula o crescimento folicular em fêmeas com baixa atividade ovariana, promovendo o retorno à ciclicidade e aumentando a probabilidade de resposta positiva à IATF subsequente.

Outro ponto-chave da estação de monta moderna é a ressincronização sistemática das vacas vazias, visando minimizar o tempo entre o diagnóstico de gestação negativo e uma nova tentativa de inseminação. Dentro dessa abordagem, três estratégias principais se destacam: Resynch 30, Resynch 22 e Resynch 14. Todas essas estratégias dependem da utilização do aparelho de ultrassom.

A estratégia Resynch 30 consiste em realizar um novo protocolo hormonal completo para IATF em todas as vacas diagnosticadas vazias 30 dias após a inseminação inicial. Essa abordagem é simples e permite manter um fluxo contínuo de manejos e intervalo de inseminações de 40 dias.

Já a estratégia Resynch 22 inclui o início do novo protocolo hormonal 22 dias após a IATF, sem o diagnóstico de gestação. Assim, o diagnóstico de gestação ultrassonográfico é feito ao redor de 30 dias, permitindo confirmar prenhez e interromper o protocolo nas fêmeas gestantes, enquanto as não gestantes já estarão em tratamento. Essa estratégia permite um intervalo de inseminações de 32 dias.

A abordagem mais precoce, o Resynch 14, inicia o novo protocolo hormonal 14 dias após a IATF, utilizando ultrassonografia com Doppler ou técnicas de avaliação precoce de corpo lúteo para selecionar as vacas não gestantes. Essa técnica permite redução ainda maior nos intervalos entre inseminações, mas exige maior controle técnico e exames mais precisos. Essa estratégia permite um intervalo de inseminações de 24 dias.

Essas estratégias de ressincronização têm se mostrado eficientes em maximizar a taxa de prenhez acumulada da estação, especialmente quando associadas ao uso sistemático da ultrassonografia para diagnóstico precoce de gestação e avaliação funcional dos ovários e útero.