Tópico 1 – Introdução

A pecuária leiteira moderna exige um controle rigoroso sobre os índices reprodutivos, com o objetivo de reduzir o intervalo entre partos, aumentar a taxa de prenhez e manter uma produção constante de leite ao longo do ano. Nesse cenário, a ultrassonografia transretal se tornou uma ferramenta indispensável na rotina de fazendas leiteiras tecnificadas, permitindo a avaliação precisa do status reprodutivo das vacas, a detecção precoce de gestação e o diagnóstico de alterações uterinas e ovarianas que afetam a fertilidade, (NUNES et al, 2023).

O uso da ultrassonografia na reprodução de vacas leiteiras permite a tomada de decisões rápidas, o direcionamento adequado de vacas vazias diagnosticadas precocemente ou em anestro e a programação eficiente de protocolos hormonais.

Desta forma, conseguimos diminuir o período de serviço e intervalo entre partos do rebanho, fazendo com que a produtividade seja maior por haver sempre mais vacas produzindo leite.

Tópico 2 – Rotina Reprodutiva das Vacas: do Parto ao Primeiro Exame Ginecológico

A gestão reprodutiva eficiente de vacas leiteiras exige organização, constância nas avaliações e decisões baseadas no resultado dos exames. Nesse cenário, a ultrassonografia reprodutiva tem papel central desde o pós-parto até a confirmação de uma nova gestação, esse período é chamado de “período de serviço”. A ultrassonografia ajuda a identificar precocemente fêmeas com distúrbios uterinos, avaliar a involução uterina, monitorar o retorno à ciclicidade e adiantar a primeira inseminação artificial em tempo fixo (IATF).

Pós-parto e início da rotina reprodutiva

Logo após o parto, a vaca entra em um período fisiológico de anestro, no qual ocorre a involução uterina e a recuperação do eixo reprodutivo. Esse período pode se estender de 25 a 40 dias, ou até por meses, dependendo da nutrição, escore corporal, ocorrência de doenças puerperais e manejo geral.

Durante esse tempo, o útero sofre um processo de involução, com regeneração do endométrio, eliminação do lóquio e fechamento cervical. O ovário pode apresentar baixa atividade, especialmente em vacas de alta produção ou com distúrbios metabólicos, como cetose e hipocalcemia.

“A ultrassonografia permite monitorar a involução uterina e a recuperação da atividade ovariana, observar se há alguma patologia uterina como metrite, endometrite e piometra” (ROMANO et al., 2022).

Período de Espera Voluntário (PEV)

O PEV é o intervalo definido pelo produtor ou pelo veterinário entre o parto e a primeira tentativa de inseminação. Comumente varia entre 30 e 60 dias, a depender do nível de produção leiteira, persistência de lactação, escore corporal da vaca e política reprodutiva da fazenda.

Em vacas mestiças de média ou baixa produção é importante que o PEV seja menor, pois um aumento no intervalo entre partos prejudica muito a produtividade da fazenda.

Já propriedades com rebanhos altamente especializados, onde a reprodução é um grande desafio, podem ter um PEV mais alto porque suas vacas possuem maior persistência de lactação e consequentemente o aumento do intervalo entra partos não prejudica tanto a produtividade do rebanho.

Ao final do PEV deve ser realizado uma ultrassonografia a fim de diagnosticar o status reprodutivo da vaca e consequentemente a escolha do protocolo mais adequado.

Ciclo da Alta Fertilidade

Segundo Oliveira e Silva (2021), para obtenção de bons resultados reprodutivos, devemos inseminar o máximo possível as vacas após o período de espera voluntário (PEV), lançando mão de programas de fertilidade que envolvem protocolos de pré-sincronização somados à protocolos com GnRH. Esses protocolos são responsáveis pelo aumento do número de vacas com corpo lúteo e folículo responsivo ao GnRH no início do protocolo gerando um melhor ambiente uterino, maior sincronização e, consequentemente , maior fertilidade. Para melhorar ainda mais a fertilidade, é importante que a fazenda faça diagnóstico precoce de gestação, observação de cio eficiente e ressincronização em massa das vacas diagnosticadas vazias.

Primeiro exame ultrassonográfico (próximo ao final do PEV)

Cerca de 5 a 10 dias antes do término do PEV, realiza-se o primeiro exame ultrassonográfico pós-parto, que é essencial para:

  • Avaliar a involução uterina completa (útero simétrico, ausência de fluido, parede fina);
  • Identificar restos placentários, endometrite clínica ou subclínica (com Doppler e avaliação de conteúdo uterino);
  • Verificar o status ovariano: se há folículos funcionais (>10 mm), corpo lúteo (CL) ou ausência de estruturas (anestro);
  • Classificar as vacas para diferentes condutas: aptas para IATF, necessitando de indução hormonal (anestro), ou com patologias que exigem tratamento prévio.

Essa triagem permite aumentar as chances de gestação nas vacas em anestro e tratamento precoce de patologias reprodutivas, fato que certamente aumenta a taxa de prenhez do rebanho que acaba sendo convertido em maior lucratividade.

Tópico 3 – Ultrassonografia em Vacas de Leite

Achados Ultrassonográficos em Vacas em Anestro Profundo

A condição de anestro, muito comum no pós-parto de vacas leiteiras de média a alta produção, é caracterizada pela ausência de atividade ovariana cíclica e pode ser fisiológica ou patológica. A ultrassonografia permite diagnosticar precocemente essa condição, classificando o tipo de anestro e orientando as decisões clínicas com maior precisão.

Útero: Ausência de tônus uterino que está flácido e simétrico à palpação e imagem

Ovários: Ovários pequenos com superfície lisa, sem estruturas funcionais evidentes; ausência de corpo lúteo e folículos dominantes.

Diagnóstico: Anestro profundo (nutricional ou fisiológico)

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Conduta clínica: Realizar protocolo de indução de ciclicidade, desde que a vaca tenha bom escore de condição corporal.

Achados Ultrassonográficos em Vacas em Anestro Transitório

O anestro transitório é uma condição comum em vacas no período pós-parto, especialmente em propriedades com bom manejo nutricional, e representa uma fase fisiológica de recuperação do sistema reprodutivo, em que as vacas estão num período de transição e próximas de voltar a ciclicidade. É caracterizado pela ausência temporária de ovulação, mas com evidências de retorno gradual da atividade folicular. A ultrassonografia é essencial para diferenciar essa condição do anestro profundo, orientando a conduta clínica adequada.

Útero: Útero simétrico, com paredes finas e conteúdo uterino ausente. Pode haver leve tônus ao toque transretal, indicando início de resposta estrogênica.

Ovários: Presença de folículo dominante, sem evidência de corpo lúteo.

Diagnóstico: Anestro transitório  – vaca em fase de retorno à ciclicidade, ainda sem ovulação efetiva e ausência de corpo lúteo.

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Conduta clínica: Realizar protocolo de indução de ciclicidade.

Protocolos de Indução de Ciclicidade em Vacas de Leite

Esses protocolos, também chamados de pré-sincronização, serão indicados em vacas com diagnóstico de anestro profundo ou transitório no final do PEV. Segundo Romano (2022), a ação da progesterona aumenta a frequência de secreção do hormônio LH ajudando no crescimento folicular ajudando no retorno da ciclicidade.

A pré-sincronização é uma estratégia chave implementada no final do PEV e é uma ferramenta de grande importância para estabelecer um programa reprodutivo que aumente a fertilidade do rebanho.

É sempre válido lembrar que os tratamentos hormonais são eficientes apenas quando há boa condição corporal ou quando o animal estiver ganhando peso.

Achados Ultrassonográficos em Vacas Ciclando

As vacas ciclando apresentam atividade ovariana regular e estrutura uterina compatível com a fase do ciclo estral. O exame ultrassonográfico permite identificar com precisão o momento fisiológico da vaca e orientar a escolha do melhor protocolo reprodutivo ou o momento ideal para inseminação.

Útero: Presença de tônus uterino variável, dependendo da fase do ciclo. O útero pode estar com paredes espessadas em fases estrogênicas. Em fase lútea, o útero é menos reativo e mais simétrico.

Ovários: Presença de corpo lúteo funcional, podendo ou não apresentar folículo dominante (>10 mm). Pode haver presença de corpo lúteo cavitário ou sólido, dependendo da fase do ciclo. Folículos em diferentes estágios de crescimento também podem estar presentes.

Diagnóstico: Fêmea ciclando normalmente, com estruturas funcionais nos ovários e padrão uterino compatível com a fase do ciclo.

Conduta clínica: Incluir a vaca em programas de IATF de acordo com sua categoria ou até mesmo observação de cio.

  • Em rebanhos a campo, é possível liberar para monta natural, dependendo da estratégia adotada.
  • Aplicação de prostaglandina para lise do corpo lúteo e observação de cio que pode ocorrer de 2 a 6 dias.

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  • Protocolos de IATF

Existem diversos protocolos que podem ser implementados em vacas que estão ciclando, suas diferenças serão determinadas de acordo com a categoria animal envolvida:

Protocolos em vacas de alta produção envolvem aplicação de GnRH no D0 para gerar um CL que vai aumentar os níveis de progresterona durante o crescimento folicular.

O adiantamento da prostaglandina e sua repetição é importante para vacas de alta produção, para garantir uma queda rápida da progesterona.

Em vacas de média a baixa produção, essas alterações não são obrigatórias, e pode-se lançar mão de procolos base ou com menos modificações.